Vingança, PCC e milícias: Projeto Repórter do Futuro discute violência
Neste sábado, 4 de maio, aconteceu a quarta conferência do módulo Descobrir São Paulo, Descobrir-se Repórter do Projeto Repórter do Futuro. Na sala Oscar Pedroso Horta, na Câmara Municipal de São Paulo, foi discutido o tema "Violência" com o economista e jornalista Bruno Paes Manso. Junto com Camila Nunes Dias, lançaram o livro “A Guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil” em agosto de 2018.
Bruno Paes Manso é também pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo – NEV/ USP e integra o grupo de pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, ligado à Escola de Comunicação e Artes (USP) e ao Instituto de Estudos Avançados (USP).
“Por quê a gente se mata?”
Esta pergunta, tão antiga quanto a ideia da ‘guerra de todos contra todos’ proposta por Thomas Hobbes, foi a que motivou Paes Manso a investigar além da dicotomia culpado-vítima, buscando uma compreensão mais ampla do problema da violência estrutural no Brasil.
Em suas entrevistas com pessoas que cometeram homicídios, ele percebeu o padrão de que “o culpado era sempre a vítima, nunca eles. Os argumentos estavam nos ciclos de vingança e no efeito multiplicador dos assassinatos”.
Em 2017, foram 64 mil homicídios cometidos em território brasileiro, posicionando o país na elite dos que mais matam – 207 desses assassinatos cometidos contra ativistas socioambientais. O continente americano, formado historicamente através da violência estrutural dos colonizadores, é o mais violento do planeta.
“O senso comum de que a ordem é estabelecida pela violência é muito comum nas instituições e nas famílias brasileiras”, expôs Manso para os alunos na primeira parte do módulo.
Bruno Paes Manso apresentou gráficos que cruzam dados do Data SUS com os fornecidos pelas Secretarias de Segurança Pública. Foto: Augusto Godoy/OBORÉ.
É importante ressaltar o protagonismo da Polícia Militar e das Forças Armadas no estímulo à violência, principalmente na segunda metade do século XX. Líder mundial em homicídios, a polícia brasileira também é uma das que mais morre, evidenciando o efeito multiplicador dos assassinatos. A militarização na formação dos agentes de segurança pública é um dos principais debates da área.
Estado, violência e o PCC
A violência contra o crime promovida pela ditadura militar e pela adoção da lógica de “guerra as drogas”, instaurada pelos Estados Unidos depois da fracassada tentativa de Lei Seca, intensificou a postura combativa e contra o sistema do crime organizado.
Em 1993, depois do massacre do Carandiru, é formado o Primeiro Comando da Capital (PCC) como um organismo de proteção e de articulação do crime contra o Estado Brasileiro e suas forças repressivas.
Além de uma facção criminosa, sua difusão foi ideológica em um modelo de negócio que “se replica pelo Brasil pois faz sentido em diversos lugares em que foram cometidos os mesmos erros pela polícia e pelo Estado”.
Na segunda parte do módulo, no qual o convidado respondeu três séries de três perguntas, esclareceu que é neste modus operandi que os jovens são aliciados para dentro da organização, como uma opção de carreira. Cabe ao Estado e a sociedade civil esclarecer as falácias da vida do crime e apresentar alternativas.
Dentro de presídios superlotados, o PCC começou a avançar sobre rivais dentro do crime de presídio em presídio. Seu rápido crescimento e desenvolvimento evidenciam a incapacidade do sistema penitenciário de controlar e reeducar os internos, que acabam submissos as hierarquias internas.
Bruno Paes Manso respondeu três séries de três perguntas antes de participar da coletiva de dez minutos. Foto: Augusto Godoy/OBORÉ.
Milícias
Em 1968, foi formulado em São Paulo o “Esquadrão da Morte” – organização paramilitar que defendia a perseguição e morte de criminosos e que realizou diversos assassinatos. O primeiro uso dessa expressão é localizado na década de 50, no Rio de Janeiro, para definir grupos de policiais que trabalhavam na criminalidade – o que hoje definimos como milícia.
Hoje estes grupos estão em evidência no debate público. A relação atual e histórica de políticos – que ocupam cargos significativos no Executivo, Legislativo e Judiciário – com milicianos vem promovendo uma série de debates sobre o tema.
“As milícias se fortalecem muito por causa da tolerância com a violência policial. Quando você [policial] é tido que tem carta branca para matar, isto vai fortalecendo estes grupos. Hoje as milícias dominam 40% do território do Rio de Janeiro, muito mais forte do que qualquer facção”, esclareceu Bruno.
Em 14 de março de 2018, a vereadora carioca Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes foram assassinados por dois milicianos. Do conjunto de favelas da Maré, Marielle fez um mestrado sobre a atuação das Unidades Policiais Pacificadoras (UPPs) no Estado do Rio de Janeiro e era assessora do deputado Marcelo Freixo, que presidiu a CPI das Milícias.
Monitor da violência e jornalismo: argumentar e esclarecer
“Para atingir e influenciar as autoridades”, Bruno Paes Manso ajudou a idealizar o Monitor da Violência, lançado em parceria com a G1. A plataforma aproveita o alto fluxo de notícias e registros de homicídios publicados pelas filiais e serve como “um banco de dados que podemos ocupar para colocar a violência como um problema para os políticos”.
Em uma imprensa que tem tradição em abordar a violência de maneira sensacionalista e dicotômica – o que acaba reforçando o ciclo multiplicador – a execução do trabalho jornalístico de qualidade é afetada pela proximidade do(a) profissional com a versão ‘oficial’, diz o jornalista.
Antes de suas considerações finais sobre a atividade, Bruno participou de dez minutos de coletiva de imprensa com os estudantes e outros dez minutos de diálogo com os observadores.
“Uma qualidade do jornalista é a percepção de que você vai entender uma história e uma realidade quando você entender que são vários lados. E esses vários lados vai te permitir ver a essência da história. Você ouve todos os envolvidos e busca responder uma grande pergunta. Estar sempre prestando atenção em tudo que possa esclarecer as respostas que se busca é muito importante para a profissão e a carreira”, finalizou.
Próximo tema
No sábado, 11 de maio, o Projeto Repórter do Futuro traz José Police Neto, formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos – UFSCar e vereador na cidade de São Paulo em seu quarto mandato, para discutir Mobilidade. Police Neto foi um dos protagonistas na parceria entre OBORÉ e a Escola do Parlamento.
SAIBA MAIS
Programação | 12º curso “Descobrir São Paulo, Descobrir-se Repórter”
Coordenadores pedagógicos: Ronald Sclavi, jornalista e professor universitário, e Sergio Gomes, jornalista e diretor da OBORÉ
6 DE ABRIL, SÁBADO 9-11H | SALA OSCAR PEDROSO HORTA DA CÂMARA MUNICIPAL DE SÃO PAULO
TEMA: SÃO PAULO, UM BANCO DE PAUTAS
Convidado: Marcelo Soares
Jornalista e professor, foi um dos pioneiros a trabalhar com "Reportagem com o Auxílio do Computador" no Brasil, hoje chamado Jornalismo de Dados. Integra a coordenação do PRF.
11H – 12 | PRAÇA MEMORIAL VLADIMIR HERZOG
Comemoração ao Dia do Jornalista e inauguração da réplica em alumínio do troféu Prêmio Vladimir Herzog, de Elifas Andreato.
13 DE ABRIL, SÁBADO 9-13H | SALA OSCAR PEDROSO HORTA
TEMA: SAÚDE
Convidado: Marco Antonio Manfredini
Graduado em Odontologia, é doutor em Saúde Pública e pesquisador na área de Saúde Bucal Coletiva e Odontologia Social e Preventiva. Integra a diretoria do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP, gestão 2019-2021). Atua como consultor nas áreas de Formação de Recursos Humanos, Planejamento e Programação em Saúde, Apoio à Gestão Regional, Modalidades de Gestão e Saúde da Família.
13 – 15H | PASSEIO
FERRAMENTAS DE OBSERVAÇÃO PARA COMPREENDER E REPORTAR O ESPAÇO URBANO.
Roteiro: Edifício Esther, Edifício e Galeria Metrópole, Edifício Eiffel, Edifício Itália, Copan, galeria Metrópolis e Grandes Galerias (Galeria do Rock).
Coordenação: Marcelo Rainho.
Jornalista (PUC-SP), fez o curso do Projeto Repórter do Futuro em 1996. Desenvolveu a carreira na direção de arte trabalhando em publicações como Arquitetura e Construção, Casa Claudia, Vogue, Playboy, seLecT, entre outras. Ministrou aulas de design no IED (Istituto Europeo di Design) de São Paulo e do Rio de Janeiro. Contribui na fundação e coordenou a casa seLecT, espaço de cursos e eventos da revista seLecT. Cultiva a experiência de flanar por São Paulo, o que rendeu o perfil no instagram: @arteculturasp, um roteiro cultural da cidade.
27 DE ABRIL, SÁBADO 9-13H | SALA OSCAR PEDROSO HORTA
TEMA: EMPREGO/DESEMPREGO
Convidado: Clemente Ganz Lúcio
Sociólogo e professor universitário. Atua como diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos - DIEESE desde 2004. É membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (CDES) e do Conselho de Administração do Centro de Altos Estudos Brasil Século XXI. Confira como foi, clique aqui.
4 DE MAIO, SÁBADO 9-13H | SALA OSCAR PEDROSO HORTA
TEMA: VIOLÊNCIA
Convidado: Bruno Paes Manso
Economista e jornalista, é doutor em ciência política e pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo – NEV/ USP. Suas pesquisas referem-se a temas como homicídios, confiança institucional e legitimidade. É pesquisador-pleno do grupo de pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, ligado à Escola de Comunicação e Artes (USP) e ao Instituto de Estudos Avançados (USP).
11 DE MAIO, SÁBADO 9-13H | SALA OSCAR PEDROSO HORTA
TEMA: MOBILIDADE
Convidado: José Police Neto
Formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos - UFSCar. Iniciou sua carreira no ambiente público aos 21 anos, trabalhando na Assembleia Legislativa de São Paulo como assessor parlamentar e chefe de gabinete. Está em seu quarto mandato como vereador na cidade de São Paulo. Atua intensamente nos assuntos que dizem respeito à qualidade urbanística na cidade de São Paulo, principalmente nas áreas de mobilidade, habitação, revitalização dos espaços públicos e planejamento urbano.
MAIO E JUNHO = OPERAÇÃO PONTO FINAL
29 DE JUNHO, SÁBADO 9-13H | UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI (SALA 631), COMO PARTE DA PROGRAMAÇÃO DO 14º CONGRESSO INTERNACIONAL DE JORNALISMO INVESTIGATIVO
FEIRA DE AMOSTRAS DA OPERAÇÃO PONTO FINAL
AVALIAÇÃO + DIPLOMAÇÃO + ENCERRAMENTO