07/05/2019

Laerte: Prêmio Averroes na cabeça!

No último domingo, 5 de maio, aconteceu a cerimônia de entrega do Prêmio Averroes de 2019 para Laerte Coutinho. No Centro Cultural “Jardins de Soraya” do Hospital Premier, amigos, amigas e familiares estiveram presentes para a homenagem – concebida em parceria entre o hospital e a OBORÉ.

Integrante da equipe semente e fundadora da OBORÉ, Laerte tem uma imensurável contribuição para a cultura e a democracia brasileiras, marcada por um olhar privilegiado de um guardião do 'espírito do tempo'.

Algumas de suas poderosas charges, fruto de uma precisão intelectual e afetiva sobre as coisas do mundo, foram expostas e penduradas nas árvores e arbustos do Jardim de Soraya e puderam ser colhidas pelos presentes como uma lembrança deste dia. 

“A Laerte entra em um labirinto com total desassombro e nos carrega junto com ela, porque é impossível escutar, testemunhar a Laerte sem também se perguntar de si. (...) O fascinante do percurso da Laerte é que não é um percurso de identidade, para chegar em um lugar fechado, mas da constante interrogação”, nos disse a jornalista Eliane Brum, que dirigiu o documentário Laerte-se.

Laerte é a homenageada deste ano do Prêmio Averroes. Foto: Alice Vergueiro

Em terceira pessoa

Enquanto o “Jardins de Soraya” se enchia de gente, uma Roda de Choro conduzida por Emiliano Castro dava o tom do evento. Laerte, que participou do grupo fundador do Clube do Choro de São Paulo, em 1976, junto com Colibri, Sergio Gomes e Pola Galé, também foi homenageada por músicos amigos ( Ivan Vilela, Toninho Carrasqueira e Emiliano Castro), aque subiram ao palco para tocar Bom Retiro época dáurea, uma valsa criada por Laerte nos anos setenta.

José Luiz del Roio, escritor, senador ítalo-brasileiro e um dos idealizadores do prêmio como  nome do personagem islâmico ibérico conhecido como Averroes - um curioso e estudioso sem fronteiras que representou o viver com ética, sede do saber, razão como método científico, tolerância com outras culturas e a bondade em relação ao ser humano -  comentou sobre a ocasião: 

“Ele [Averroes] também tinha uma concepção: a construção da esperança. Sempre tiveram momentos difíceis, mas sempre insistiu nesta questão ‘vai conseguir’, ‘vamos para frente’, ‘demora, mas vai’. Tem um pecado que não tem perdão: o pecado contra o espírito. Pertence a ele o dom da esperança, quem peca contra ele peca contra a esperança. Este é o pecado que não tem perdão. Então minha gente, por favor não pequem contra isto. A esperança existe”, elucidou o escritor em sua fala.

Sergio Gomes, jornalista e diretor da OBORÉ, revelou aos presentes trechos de uma entrevista que realizou com a mãe de Laerte, Lila Coutinho, na qual revelou que o primeiro desenho que a cartunista fez foi a cabeça de um cavalo, inspirado pelo animal que Seu João, segurança do bairro onde vivia, no Alto de Pinheiros, utilizava em suas rondas.

“O Brasil sem você seria outra coisa. O que está acontecendo aqui hoje é a assembleia constituinte do projeto de re-esperança de nosso país. Em nome de todos que estão aqui e em nome dos que ainda estão nas barrigas de suas mães,  em nome deste futuro queremos te agradecer muito por você estar com a gente e ter aceito ser homenageada”, finalizou.

Laerte com o chapéu que Sérgio lhe rendeu em sua homenagem. Foto: Alice Vergueiro
 

Após o encerramento do documentário “Laerte em terceira pessoa”, realizado pelo Hospital e exibido na cerimônia, Rafael Coutinho, filho de Laerte, subiu ao palco e leu uma carta de sua irmã mais nova, Laila, que não pôde comparecer, mas escreveu o porquê de seu pai merecer a homenagem.

“Várias vezes eu sou surpreendida por amigos e conhecidos que me dizem, ‘nossa você é filha da Laerte, deve ser muito legal ser filha da pessoa que...’ E aí dá pra completar essa frase com umas das mil coisas maravilhosas que ela já fez ou situações difíceis pela qual ela passou e saiu com graça e pose. Por isso eu acho que meu pai é merecedora deste prêmio, em quase cinco décadas de carreira, ela já fez de tudo. E o fez sendo uma pessoa íntegra, que gosta do que faz e fazendo muito bem”.


Laerte com seu filho Rafael e os netos Ariel e Valente. Foto: Alice Vergueiro
 
Mau tempo para poesia

Laerte recebeu os prêmios das mãos do filho e suas primeiras falas foram de emoção, referindo-se à leitura da carta de Laila por Rafael. Laerte disparou que “a emoção é uma coisa muito boa na conexão humana, mas muito ruim para fazer cartum”. Sua sentença abria a discussão sobre a responsabilidade humana do humor. 

“A gente continua se emocionando com as coisas e eu vejo os netos, os filhos, as crianças que estão surgindo nessa vida, aparecendo, fazendo sua entrada triunfal com as flores laranjas. Ao mesmo tempo os velhos queridos, tantos velhos e velhas queridas que eu revejo aqui hoje. Inclusive este velho querido que está preso e que havemos de libertar em algum tempo”, cutucou em referência a Lula.

Ao final, Laerte recitou as últimas estrofes do poema “Mau tempo para poesia” de Bertolt Brecht, e assinou: “Neste momento é o horror que nos movimenta, mas é a emoção que nos constitui. Obrigado”.


Foto: Alice Vergueiro

Genial

Comunicadora e artista em quase todas as áreas, que a faz “a nossa Chaplin”, Laerte Coutinho está muito à frente de nosso tempo. Estudou jornalismo e música na Escola de Comunicação e Artes da USP – não terminou nenhuma das duas graduações – e deu início à sua carreira nas comunicações através de seus desenhos.

Na faculdade, durante os anos 70, fundou a revista Balão junto com Luiz Gê, Lucia Guanaes e Fausto. Seu talento e sua retórica política já eram aplicadas na produção de materiais em solidariedade aos presos políticos da ditadura – prática que recentemente voltou a realizar.

Sua relação com a classe trabalhadora, sindicatos e organizações de luta democrática se desenvolve e sua arte adquire cada vez mais o papel de denúncia do qual hoje tornou-se referência no assunto. Em 1978, cria o personagem João Ferrador para a publicação do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo. No mesmo ano, cria a OBORÉ.

Juntos lançam diversas publicações de sindicatos e em 1986 publicam o livro “Ilustração Sindical” com mais de mil desenhos e situações prontos para usar em “sindicatos, associações, clubes, entidades estudantis” divulgava a capa da peça de domínio público. Já estava aí o espírito compartilhador de Laerte.
 
Também lançou tiras, cartuns e charges em revistas como Chiclete com Banana e Piratas do Tietê e em jornais como Gazeta Mercantil, o Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo. Ao longo de todos estes anos, deu vida a dezenas de personagens explorando não apenas o humor, mas também o absurdo, a metalinguagem e a autobiografia.

Em sua trajetória recebeu o prêmio principal na primeira edição do Salão Internacional de Humor de Piracicaba, Prêmio Ângelo Agostini e ganhou todas as categorias do Troféu HQ Mix. Virou filme em “Vestido de Laerte”, dirigido por Cláudia Priscilla e Pedro Marques, e em “Laerte-se”, por Eliane Brum e Lygia Barbosa, além de outras aparições.

Veja as fotos do evento aqui.

Saiba mais

Leia o discurso de Laerte na íntegra.
 
Confira aqui o jantar de anúnico do Prêmio, em março.